Muitos filósofos e críticos de arte têm chamado a atenção para a preocupante preponderância da componente comercial e mercantil que atinge em cheio a arte, sobretudo aquela que é oficialmente etiquetada como “arte contemporânea”. Teme-se que esta instrumentalização a esvazie da sua função crítica e social, e coloque em risco um dos vectores fundamentais da política cultural das sociedades democráticas: possibilitar a fruição estética, o contacto genuíno com os bens culturais ao maior número possível de cidadãos.

É verdade que a “mercadorização” generalizada da cultura atinge, sem excepção, todas as áreas e todos os domínios das actividades. Por exemplo, o caso do jornalismo é especialmente estudado pelo sociólogo José Luís Garcia – ver o comentário de Clara Vasconcelos no JN. De certo modo, podemos dizer que a produção cultural, a criação artística e literária sofrem hoje das mesmas preocupantes derivas que este investigador detecta nos sectores da imprensa e dos media, ou seja, a sua transformação em “centros de produção de conteúdos e consumíveis mediáticos”.
O enfraquecimento da ligação da arte com a complexidade do real, o distanciamento dos artistas face aos verdadeiros problemas sociais, o fortalecimento do poder dos intermediários financeiros no sistema da arte são algumas das graves consequências que é necessário repensar. Quem codifica, hoje, a missão, o lugar, o significado, o estatuto, o valor da arte é cada vez menos o artista, o “especialista” ou o gosto genuíno do público; a instância de legitimação do universo artístico está cada vez mais influenciada e ocupada por aquela “classe” ou grupo em contínua ascensão.
Que fazer? A cada um a sua tarefa: ao artista, que se liberte dos constrangimentos; ao público, que cultive uma vigilante atitude crítica perante os processos da massificação da cultura; à política cultural, que restitua à arte o espaço da sua inspiração; ao ensino, sobretudo no âmbito da formação académica, que reflicta e trabalhe os instrumentos pedagógicos de aproximação à fruição estética.
Decididamente, não é com facilitismo, frenesim, mediatismo ruidoso e barulhento – com o lucro na mira – que se percepciona o fundo sempre complexo e gratificante da arte. A democratização da cultura não tem nada a ver com “banalização”; esta é mesmo a negação daquela. W. Benjamin e T. Adorno já o denunciaram.
Carlos Morais, FacFil/UCP-Eacs